Endometriose: Diagnóstico, Tratamento e Impacto na Fertilidade

Conteúdo revisado pela Dra. Taiane Frota · CRM-AM 7285

Médica ginecologista realizando ultrassom pélvico em consultório para investigar endometriose

O que é Endometriose?

A endometriose é uma das condições ginecológicas mais subdiagnosticadas e subestimadas da medicina moderna. Estima-se que ela afete cerca de 190 milhões de mulheres no mundo — aproximadamente 10 a 15% de todas as mulheres em idade reprodutiva. No Brasil, são cerca de 7 milhões de mulheres convivendo com a doença.

Em termos simples: na endometriose, um tecido muito similar ao endométrio — a camada interna do útero que descama durante a menstruação — cresce em locais onde não deveria estar. Esse tecido pode se instalar nos ovários, nas trompas, no intestino, na bexiga, no peritônio e, em casos mais raros, em órgãos distantes como pulmão e diafragma.

O problema é que esse tecido fora do lugar se comporta como o endométrio normal: responde aos hormônios do ciclo menstrual, cresce, engrossa e descama — mas não tem por onde sair. Isso causa inflamação local, formação de aderências (tecidos que “colam” órgãos entre si) e, com o tempo, lesões progressivas.

O atraso médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico ainda é de 7 a 10 anos — um número que reflete o quanto a dor feminina é historicamente normalizada e subestimada. Reconhecer os sinais precocemente pode mudar completamente a trajetória da doença.

Por que a endometriose acontece?

A causa exata da endometriose ainda não é totalmente compreendida, mas existem teorias bem estabelecidas:

Teoria da menstruação retrógrada

A mais aceita. Durante a menstruação, parte do sangue e células endometriais reflui pelas trompas em direção à cavidade pélvica (ao invés de sair pelo canal vaginal). Esse refluxo acontece na maioria das mulheres — mas apenas algumas desenvolvem endometriose, o que sugere que o sistema imunológico tem papel fundamental em eliminar ou não essas células.

Disfunção imunológica

Em mulheres com endometriose, o sistema imune parece não reconhecer e eliminar as células endometriais deslocadas como deveria. Isso permite que elas se implantem e cresçam em locais inadequados.

Fatores genéticos

A endometriose tem componente hereditário claro. Mulheres com mãe ou irmã com endometriose têm risco 5 a 7 vezes maior de desenvolver a condição. Variantes genéticas específicas estão sendo identificadas por pesquisas internacionais de grande escala.

Metaplasia celular

Algumas células do peritônio (membrana que reveste a cavidade abdominal) podem se transformar em células endometriais — especialmente sob influência hormonal e inflamatória.

Disseminação linfática e vascular

Explica como células endometriais podem chegar a órgãos distantes como pulmões e diafragma.

Sintomas da endometriose: quando a dor é sinal de alerta

Um dos maiores desafios da endometriose é que seus sintomas são frequentemente normalizados — tanto por quem sofre quanto por profissionais de saúde. “Cólica forte faz parte” é uma frase que atrasou incontáveis diagnósticos. Não faz.

Dor — o sintoma central

Dismenorreia severa (cólica intensa)

A cólica de endometriose não é apenas incômoda — ela pode ser incapacitante. Mulheres relatam não conseguir trabalhar, estudar ou realizar atividades básicas nos dias de menstruação. A dor começa antes da menstruação e pode persistir após o fim do ciclo.

Dor pélvica crônica

Diferente da dismenorreia, essa dor não está restrita ao período menstrual. Ela pode ser constante ou cíclica, localizada ou difusa, e afeta a qualidade de vida de forma significativa ao longo de todo o mês.

Dispareunia (dor durante ou após relações sexuais)

Especialmente em posições mais profundas. É causada pelo comprometimento dos ligamentos uterossacros e do fundo de saco. Afeta intimidade e bem-estar emocional das pacientes.

Disquezia (dor ao evacuar)

Quando a endometriose compromete o intestino, a evacuação durante o período menstrual pode ser dolorosa. Em alguns casos, há sangramento retal durante a menstruação.

Disúria (dor ao urinar)

Quando a bexiga ou os ureteres são acometidos. Pode haver sangue na urina durante o período menstrual (hematúria cíclica).

Sangramento anormal

  • Menstruação muito intensa (menorragia)
  • Spotting (manchas de sangue) antes da menstruação
  • Sangramento entre os ciclos

Infertilidade

A endometriose é responsável por 30 a 50% dos casos de infertilidade feminina. Os mecanismos incluem:

  • Distorção anatômica das trompas e ovários
  • Ambiente pélvico inflamatório que prejudica óvulos e espermatozoides
  • Comprometimento da qualidade ovocitária
  • Formação de endometriomas (cistos de endometriose nos ovários) que reduzem a reserva ovariana

Sintomas sistêmicos

  • Fadiga crônica: presente em até 50% das mulheres com endometriose, não alivia com descanso
  • Sintomas gastrointestinais: inchaço, gases, alterações no ritmo intestinal — frequentemente confundidos com síndrome do intestino irritável
  • Sintomas urinários: urgência, frequência, infecções de repetição
  • Impacto emocional: ansiedade, depressão, isolamento social — ligados tanto à dor crônica quanto às limitações impostas pela doença

Estadiamento da endometriose

A endometriose é classificada em 4 estágios pela American Society for Reproductive Medicine (ASRM), baseados na extensão, localização e profundidade das lesões, e presença de aderências:

Estágio I — Mínimo: Lesões isoladas e superficiais, sem aderências significativas.

Estágio II — Leve: Lesões mais profundas, com poucas aderências.

Estágio III — Moderado: Múltiplas lesões profundas, endometriomas pequenos, aderências mais densas.

Estágio IV — Severo: Lesões profundas e extensas, endometriomas grandes (>2 cm), aderências densas que distorcem a anatomia pélvica.

Importante: o estadiamento não reflete necessariamente a intensidade da dor. Mulheres com endometriose estágio I podem ter dores mais intensas do que aquelas com estágio IV — e vice-versa. A correlação entre lesões e sintomas é imperfecta e individualizada.

Como o diagnóstico é feito?

O diagnóstico da endometriose é um dos pontos mais frustrantes para quem vive com a doença — e um dos que mais evoluiu nos últimos anos.

Anamnese e exame físico

O primeiro passo é uma conversa detalhada sobre os sintomas: quando a dor começa, onde se localiza, como se relaciona com o ciclo, o impacto nas atividades diárias. O exame físico ginecológico pode revelar nódulos dolorosos, útero em retroversão fixo ou ovários aumentados.

Ultrassom transvaginal com preparo intestinal

É o exame de imagem de primeira escolha. Quando realizado por profissional experiente e com protocolo específico para endometriose (incluindo preparo intestinal), identifica:

  • Endometriomas ovarianos (cistos com conteúdo espesso e homogêneo — aspecto de “vidro fosco”)
  • Nódulos profundos no retossigmoide, bexiga, ligamentos e outros locais
  • Aderências sugestivas (útero e ovários “colados”)

Ressonância magnética de pelve

Complementa o ultrassom em casos complexos — especialmente para mapear comprometimento intestinal, ureteral e em profundidade. Essencial para o planejamento cirúrgico.

Laparoscopia diagnóstica e terapêutica

Historicamente considerada o “padrão-ouro”, a laparoscopia permite visão direta das lesões e confirmação histológica (biópsia). Hoje, com o avanço do ultrassom, o diagnóstico pode ser feito clinicamente — e a cirurgia reservada para quando há indicação terapêutica, não apenas diagnóstica.

CA-125

Marcador tumoral que pode estar elevado em casos de endometriose avançada. Não é específico nem sensível o suficiente para diagnóstico isolado, mas tem utilidade no acompanhamento do tratamento.

Opções de tratamento da endometriose

O tratamento da endometriose é individualizado, baseado nos sintomas, no estadiamento, no desejo de gravidez e nas preferências da paciente. Não existe abordagem única que funcione para todas.

1. Tratamento da dor

Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)

São a primeira linha para dor menstrual leve a moderada. Ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco inibem as prostaglandinas — substâncias que causam cólica e inflamação. São mais eficazes quando iniciados 1 a 2 dias antes da menstruação.

Analgésicos adjuvantes

Paracetamol e dipirona como complemento. Em casos de dor crônica intensa, pode ser necessária avaliação por clínica de dor com abordagem multimodal.

2. Terapia hormonal — a base do tratamento clínico

O objetivo central é suprimir a estimulação estrogênica das lesões, reduzindo inflamação, dor e progressão da doença.

Anticoncepcionais hormonais combinados (pílula)

  • Uso contínuo (sem pausa) é mais eficaz para controle da dor
  • Reduzem o fluxo menstrual e a inflamação
  • Suprimem o crescimento das lesões
  • Bem tolerados e de longo prazo

Progestágenos

  • Dienogeste (Visanne): progestágeno com ação específica sobre o endométrio, considerado tratamento de primeira linha para dor da endometriose
  • DIU de levonorgestrel (Mirena): excelente opção para mulheres com comprometimento endometrial, reduz sangramento e dor significativamente
  • Implante subdérmico de etonogestrel: opção de longa duração com bom perfil para endometriose
  • Medroxiprogesterona injetável: alternativa de baixo custo

Agonistas do GnRH

  • Induzem estado de “menopausa temporária” ao suprimir profundamente os estrogênios
  • Muito eficazes para dor severa
  • Uso limitado a 6 meses sem add-back therapy (reposição hormonal de baixa dose para proteger ossos)
  • Reservados para casos graves ou pré-operatório

Inibidores de aromatase

  • Reduzem a produção local de estrogênio nas próprias lesões
  • Usados em combinação com outros hormonais, em casos refratários

3. Tratamento cirúrgico

Laparoscopia com ressecção ou ablação das lesões

  • Tratamento de escolha para dor refratária ao tratamento clínico
  • Visa remover todas as lesões visíveis, aderências e endometriomas
  • A excisão completa (ressecção) é superior à ablação (queima superficial) em termos de controle da dor e recorrência
  • Melhora significativa da fertilidade em casos selecionados

Cirurgia de endometriose profunda

  • Casos com comprometimento intestinal, ureteral ou diafragmático
  • Requer equipe multidisciplinar (ginecologista, cirurgião coloretal, urologista)
  • Planejamento cuidadoso com exames de imagem detalhados

Histerectomia

  • Remoção do útero — reservada para casos extremamente severos, refratários, em mulheres que não desejam mais gestações
  • Não é cura definitiva se os ovários forem mantidos — o estrogênio ovariano pode continuar estimulando lesões residuais

4. Abordagem multidisciplinar — fundamental, não complementar

A endometriose é uma doença sistêmica e seu manejo ideal envolve:

Fisioterapia pélvica: Trata hipertonia do assoalho pélvico (tensão muscular causada pela dor crônica), melhora função sexual e reduz dor ao longo do tempo.

Psicoterapia: A dor crônica altera o processamento neural da dor (sensibilização central) e causa impacto emocional real. Terapia cognitivo-comportamental tem evidência para manejo de dor crônica.

Nutrição anti-inflamatória: Dieta com baixo consumo de carnes vermelhas processadas, laticínios integrais e açúcar; rica em ômega-3, vegetais e antioxidantes — estudos associam ao menor risco e menor intensidade dos sintomas.

Acupuntura: Evidências crescentes para controle da dor em endometriose.

Endometriose e fertilidade: o que você precisa saber

A relação entre endometriose e fertilidade é complexa e frequentemente mal compreendida.

Como a endometriose afeta a fertilidade?

  • Distorção da anatomia pélvica por aderências dificulta o encontro do óvulo com o espermatozoide
  • O ambiente pélvico inflamatório é hostil aos gametas
  • Endometriomas nos ovários reduzem a reserva ovariana (quantidade de óvulos) e comprometem a qualidade dos ovócitos
  • Alterações na implantação do embrião no útero

Posso engravidar com endometriose?

Sim — muitas mulheres com endometriose engravidam naturalmente. Para aquelas que precisam de ajuda:

  • Indução de ovulação com monitoramento: para casos leves
  • Inseminação intrauterina (IUI): para comprometimento tubário parcial ou fator masculino associado
  • Fertilização in vitro (FIV): melhor opção para casos moderados e graves — resultados são comparáveis aos de mulheres sem endometriose quando manejados adequadamente

Cirurgia antes da FIV?

Esta é uma das questões mais debatidas em reprodução assistida. A decisão depende do tamanho e localização dos endometriomas, da reserva ovariana e de outros fatores individuais. Não existe resposta única — deve ser discutida individualmente com seu médico.

Preservação da fertilidade

Para mulheres com endometriose que ainda não desejam engravidar mas estão preocupadas com a reserva ovariana, a vitrificação de óvulos (congelamento) pode ser uma opção a ser discutida.

Perguntas frequentes sobre endometriose

A endometriose tem cura?

Ainda não existe cura definitiva. É uma doença crônica que pode ser muito bem controlada com tratamento adequado. O objetivo é aliviar a dor, preservar a fertilidade e garantir qualidade de vida.

A cirurgia cura a endometriose?

A cirurgia remove as lesões visíveis, mas não elimina a doença definitivamente. A taxa de recorrência sem tratamento hormonal após a cirurgia é de 20 a 40% em 5 anos. Por isso, o tratamento hormonal pós-operatório é geralmente recomendado.

Gravidez cura endometriose?

Não. É um mito que precisa ser combatido. A gravidez pode suprimir temporariamente os sintomas (pela ausência de menstruação e pelo ambiente hormonal gestacional), mas não trata a doença. Os sintomas tipicamente retornam após o parto.

Endometriose vira câncer?

A endometriose em si não é câncer, mas está associada a um risco ligeiramente aumentado de certos tipos de câncer ovariano (especialmente o de células claras e endometrioide). O risco absoluto é pequeno, mas reforça a importância do acompanhamento regular.

Por que demora tanto para diagnosticar?

Porque a dor menstrual intensa é culturalmente normalizada, os sintomas se sobrepõem a outras condições (intestino irritável, cistite) e porque o diagnóstico definitivo exigia laparoscopia — o que cria uma barreira. A evolução do ultrassom especializado melhorou isso significativamente.

Quando buscar avaliação especializada?

Não espere a dor se tornar insuportável. Agende uma consulta se:

  • Sua cólica menstrual interfere no trabalho, estudo ou vida social
  • Você sente dor pélvica fora do período menstrual
  • Tem dor durante relações sexuais
  • Apresenta dor ao evacuar ou ao urinar, especialmente durante a menstruação
  • Está tentando engravidar sem sucesso
  • Tem histórico familiar de endometriose
  • Já foi diagnosticada e deseja reavaliação ou segunda opinião

O diagnóstico precoce muda o prognóstico. Quanto antes a endometriose for identificada e tratada, menor o risco de progressão, aderências e comprometimento da fertilidade.

Dra. Taiane FrotaGinecologista · CRM-AM 7285 · RQE 4383

Atendimento humanizado com foco na saúde integral da mulher, em Manaus.

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Este artigo tem fins informativos e educativos e não substitui a avaliação médica individualizada. Consulte a Dra. Taiane Frota para uma avaliação completa e um plano adequado à sua realidade.