Por Dra. Taiane Frota · CRM-AM 7285
Hoje quero compartilhar um caso real que me marcou profundamente e que reforça algo em que sempre acreditei: o exame ginecológico pode salvar vidas.
A história
Uma paciente na faixa dos 30 anos, mãe de um filho pequeno, chegou ao meu consultório com uma história preocupante: nunca havia realizado um exame preventivo do colo do útero, mesmo tendo passado por uma gestação recente — período em que o acompanhamento da saúde feminina é essencial.
Meses atrás, ela apresentou um sangramento intenso, inicialmente atribuído a um mioma uterino. A perda sanguínea foi tão importante que precisou ser internada e receber transfusão de sangue.
Algum tempo depois, voltou a procurar atendimento médico. Estava sangrando havia mais de um mês e precisou de nova internação, permanecendo três dias hospitalizada e recebendo transfusão sanguínea novamente. O diagnóstico continuava sendo mioma, e ela já estava com uma histerectomia agendada — cirurgia que retiraria o útero.
Foi nesse momento que ela chegou ao meu consultório, buscando realizar um exame preventivo antes da cirurgia.
O que o exame físico revelou
Antes de qualquer coleta, fiz aquilo que considero indispensável: o exame físico ginecológico completo. E o que encontrei mudou completamente a condução do caso.
Ao exame especular, visualizei uma lesão extensa no colo do útero, com sangramento importante. Ao toque, percebi uma massa endurecida, medindo mais de 5 centímetros — uma alteração que não poderia ser simplesmente atribuída a um mioma.
Diante da suspeita, realizei uma biópsia. O resultado confirmou câncer do colo do útero. Solicitei uma ressonância magnética para avaliar a extensão da doença e orientar o estadiamento e a definição do tratamento, e a condução do caso foi completamente reavaliada a partir daquele momento.
Por que estou contando essa história
Porque essa mulher ainda é jovem. Porque é mãe de uma criança pequena. Porque passou por uma gestação recente. Porque enfrentou sangramentos intensos, internações e transfusões. E porque chegou ao meu consultório sem nunca ter realizado um exame preventivo.
Não sabemos exatamente quando aquela lesão começou a se desenvolver. Mas sabemos que o câncer do colo do útero é uma doença que, na maioria das vezes, pode ser prevenida por meio da vacinação contra o HPV e do rastreamento adequado.
Três mensagens importantes para todas as mulheres
- Nem todo sangramento é causado por um mioma. Mesmo quando já existe um diagnóstico de mioma, sangramentos persistentes ou intensos precisam ser investigados — outras causas podem estar presentes ao mesmo tempo.
- O exame ginecológico é indispensável. Muitas mulheres evitam o exame por vergonha, medo, desconforto ou porque estão menstruadas ou sangrando. Mas o sangramento não impede necessariamente a avaliação — em alguns casos, é justamente durante o exame que conseguimos identificar a origem do problema.
- A prevenção precisa fazer parte da sua vida. Hoje, o rastreamento com teste molecular para HPV de alto risco representa um avanço importante na prevenção do câncer do colo do útero, permitindo identificar infecções associadas ao desenvolvimento da doença e orientar o acompanhamento adequado. Mulheres com sintomas precisam de avaliação diagnóstica, independentemente de estarem ou não na idade recomendada para o rastreamento.
Minha reflexão como médica
Esse caso me fez pensar em quantas mulheres passam anos cuidando dos filhos, da casa, do trabalho e da família, enquanto deixam a própria saúde para depois. E reforçou algo que considero essencial na medicina: não basta olhar os exames, precisamos olhar, ouvir e examinar nossas pacientes.
O exame físico não é um detalhe da consulta — é parte fundamental do cuidado. Às vezes, o que muda completamente uma história não é um exame sofisticado. É um exame ginecológico bem realizado.
Se você está há muito tempo sem procurar seu ginecologista, não espere apresentar sintomas para cuidar de você. E, se está enfrentando sangramentos persistentes, procure uma avaliação.
Sua saúde merece atenção. Sua vida merece cuidado.
Com carinho,
Dra. Taiane Frota
Ginecologia e Medicina Preventiva
Relato clínico com finalidade educativa. A identidade da paciente foi preservada — nenhum nome ou dado que permita identificação foi divulgado. Este conteúdo não substitui uma consulta médica individual; procure sempre avaliação presencial.
